- Vamos na chuva mesmo.
- De jeito nenhum.
- Por que Hannah? É de açucar?
- Hello, cabelo pintado, e de vermelho ainda. Pego chuva nunca.
- Você é uma fresca sabia? Vamos...
- Não, não vamos não. Ah fica aí, espera a chuva passar oh.
O vento castigava severamente os nossos cabelos que paravam em todos os lugares menos aonde deveriam, e você sorria, somente pra mim, somente por mim... até porque não havia ninguém mais lá além de mim. Seu braço ora na minha cintura ora nossas mãos se juntavam, mas em momento algum estavamos longe, estavamos separadas. Pequenas gotas de tamanho de lágrimas de um recém-nascido começaram a cair do céu, em uma deliciosa brincadeira. Você tinha que ir embora e eu desejava tudo menos isso, porque então eu teria que voltar pro vazio. Porque já era vazio sem você e agora ainda mais vazio somente com as tuas lembranças. Não queria voltar pros colchões jogados na sala aonde você havia delicadamente procurado a minha mão com a tua, não queria deitar na minha cama, agora com seu cheiro, aonde conversamos em voz baixa ( porque ninguém mais precisaria ouvir ) com as pernas entrelaçadas e rostos tão próximos que eu não precisaria de esforço para tomar teus lábios nos meus. Não desejava voltar para as saudades. Então a chuva começou a cair, forte e me ensopou da cabeças aos pés justamente quando passava na praça vazia, e por impulso, me sentei nos degrais coloridos. Ainda podia ouvir o riso das crianças que não estavam ali, assim como podia sentir seu perfume que a chuva não lavou... você havia beijado meus lábios um pouco antes de partir e eu ainda podia sentir o calor e o sabor dos seus.
Se há algum futuro eu não sei, mas eu parei pra pensar no nosso, ali, sentada sozinha na praça enquanto a chuva castigava tudo a minha volta, dentro de mim, entre bebês, decoração de casa e arranjos para casamento, reina a mais absoluta paz.
Então noto que cheguei aquele ponto que não preciso fechar os olhos para sonhar.
