Passado, cortina de vidro.

Hoje abri o guarda roupa e me sentei no chão, tomei cuidado de não respirar muito para a poeira não me atacar. Em minha volta duas caixas, presente e passado. Abri a caixa do presente e respirei fundo, sabendo que a partir dali, meu auto controle morreria, tirei os papeis, os acessórios e os deixei no chão... então abri a caixa do passado e lá dentro um coração repousava recheado de papeis. Tirei um por um, desmasseio-os com lágrimas a escorrer, reli-os, sentindo o meu próprio coração se encher do mesmo amor, da mesma magoa, da mesma dor. Peguei então os acessórios e coloquei-os com os outros dentro do coração. Fechei-a, deixando os papeis de fora, separando sempre passado do presente. Os papeis do presente se confundiam entre os meus e os que me foram dados, olhei os meus me sentindo quase morta por dentro e então, juntei-os aos papeis do passado. Os que me foram dados eram mais volumosos, em maior quantidade, comecei a lê-los sem pressa, absorvendo cada palavra, cada falta de pontuação, então começou a me faltar ar. Tive que parar de ler antes mesmo que os encharcasse, tudo ali era exatamente igual. As assinaturas eram diferentes, as caligrafias, as datas, o local de remessa, mas o conteúdo poderia ter xerocopiado... só então, eu percebi - entre muitos soluços - que eu fugi do meu passado para entrar nele denovo e por causa disso, não consegui me mover novamente. Pensei comigo mesma "Hannah querida, se você repete um filme, o seu final não vai mudar mesmo que tu torça muito para isso." Juntei os papeis e dobrei-os de forma a caberem na caixa do passado (cujo eu preciso aumentar), fechei-a, nesse ponto já não havia lágrima alguma, dor alguma, só uma paz... estranha e desconhecida. Dei corda no meu carrossel e o deixei tocar aquela doce melodia italiana que sempre me fez tão bem, fechei a caixa do passado e olhei então a caixa do presente, sorri. Guardei a caixa do passado novamente dentro do guarda roupa, fechei a caixa do presente e me levantei do chão, coloquei a do presente em minha estante, aonde poderia olha-la sempre. Saí do quarto e apaguei a luz, torcendo para que meus fantasmas tenham medo do escuro e me perguntando em qual esquina eu preencheria meu presente novamente.
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