Postado por
Hannah D.
O quarto está escuro quando eu abro sua porta - que range - o cheiro forte de mofo é o primeiro a chegar as minhas narinas, um passo a dentro do recinto e a escuridão me toma e já não é possível enxergar mais nada além daquilo. Tateando o caminho, abro as cortinas, mas a luminosidade é pífia e e eu me vejo forçando as vistas para enxergar, tiro o lençol que cobre uma cadeira da vovó e me sento ali, tossindo um pouco pela poeira que subiu. Pego um pequeno caderno que repousa no chão, jogado, sua capa está desmanchando e quase não dá para ler o que está escrito, mas fragmentos de palavras vão se juntando e saindo do papel, tomando forma e rumando diretamente aos cortes no meu corpo, re-abrindo, re-fazendo, cortes e machucados, fazendo o sangue escorrer; viscoso, quente, vívido.
O barulho nunca chega ao chão porque é abafado por um pequeno bicho de pelúcia, deformado, jogado ali. Mais a frente, um pequeno instrumento com a palavra "passado" grafada violentamente e grosseiramente, pende pelas cordas. Pelas paredes, fotos se amarelam e desprendem devido ao tempo. Beijos, abraços, luzes, sóis, luas, chuvas, mares, sorriso sorriso sorriso, choro. Uma ultima foto, isolada, perdida. Uma garota - talvez eu mesma, pelos cabelos loiros e cacheados - e lágrimas escorriam pelo seu rosto mas ainda assim, um sorriso débil pousava em seus lábios rosados. Tentei pegar a foto com a ponta dos dedos, mas então ela escorrega, caindo num abismo profundo de escuridão. Durante o tempo que fico ali, me esqueço aonde a porta fica, e durante todo aquele tempo, meu coração esmagava-se, apertando-se em um pequeno quadrado, transformando de alguma forma, sair.
Alguém brilha, no canto mais afastado, depois de uma caótica escuridão vértix, e eu caminho até ali, impedida pelo medo de seguir em frente, medo de ser sugada, presa, morta. Mas algo naquele brilho que me atraí desesperadamente... ela abre os braços e eu fecho os olhos imaginando como seria está ali. Inconscientemente. Atraída. Mais um passo em frente, e mais um, e mais. E os lábios dela se juntaram aos meus, sôfregos. Então fecho a porta. E de alguma forma, os cortes, não passam de cicatrizes, delicadas, finas, quase transparentes. Os dedos dela se entrelaçam aos meus e ela aponta a um lugar, ensolarado, brilhante... e eu soube que ali eu poderia me perder, por toda a eternidade.